domingo, 30 de outubro de 2011

O voo do Astro


A tentativa da Globo de experimentar um novo horário de novelas - em torno das 23 horas, então ocupado por minisséries e seriados - ao que parece, foi além das expectativas da emissora, já que sua meta de audiência foi superada. Isso vem comprovar que existe público para o formato nesta faixa. 

Nos anos 70, a novela das 8 estava para o que hoje é a novela das 9. E e a novela das 10 naquela época era o que é a novela das 11 para a atualidade. O antigo horário das 10 era ocupado pelo que convencionou-se chamar de "experimentos em teledramaturgia". Ou seja, o horário permitia à emissora correr o risco da ousadia em temas e formatos. E também era o horário menos visado pela censura do Regime Militar. Foi às 10 da noite que grandes dramaturgos se destacaram na televisão: Dias Gomes (Bandeira Dois, O Bem Amado, O Espigão, Saramandaia), Bráulio Pedroso (O Cafona, O Bofe, O Rebu), Jorge Andrade (Os Ossos do Barão, O Grito), Wálter George Durst (Gabriela, Nina).

O Astro provou que pode-se aproveitar a faixa para o mesmo fim. Não faltou violência, cenas de sexo e situações politicamente incorretas, com cenas de personagens fumando, bebendo e jogando. E o público comemorou já que, na realidade, sentia falta desta liberdade na nossa teledramaturgia. De uns vinte anos para cá, a TV brasileira sofreu um processo de "encaretamento", com uma onda politicamente correta que, bem ou mal, vem limitando os autores de novelas em seus processos de criação. Em um horário com uma classificação indicativa mais permissiva, pode-se voltar a abordar temas e situações há muito tempo banidos de nossas novelas.

Mas, acima de tudo, O Astro mostrou um bom e velho folhetim. O remake de um antigo sucesso de Janete Clair foi a escolha ideal para se celebrar os 60 anos da telenovela no Brasil - data comemorada em dezembro (a primeira novela, Sua Vida Me Pertence, estreou em dezembro de 1951, na TV Tupi de São Paulo). O estilo "kitsch", exagerado, melodramático, em texto, interpretações e caracterizações, mostrou ter sido uma opção acertada. 

O tom popularesco da trama (que muitas vezes beirou o estilo mexicano de teledramaturgia), com referências à cultura pop e erudita, foi a tônica do texto afiado dos roteiristas de O Astro - Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, e seus colaboradores Tarcísio Lara Puiati e Vitor de Oliveira. A direção geral de Mauro Mendonça Filho soube muito bem incorporar o texto à proposta da novela. 

E uma ótima direção se faz com um ótimo elenco em um texto de primeira. Pudemos acompanhar grandes momentos de Marco Ricca (Samir), Humberto Martins (Neco) Rosamaria Murtinho (Magda), Fernanda Rodrigues (Jôse), Antônio Calloni (Natal), e tantos outros. E em especial Regina Duarte - com sua Clô Hayalla -, que há muito tempo não tinha em novelas uma interpretação tão marcante. Vale destacar também a atuação de Frank Menezes e Pablo Sanábio (como a dupla de cabeleireiros Clayton e Pablo), responsáveis pelos momentos mais hilários da novela.

Mas claro, nem tudo foram flores em O Astro. Adaptar uma obra de 186 capítulos para menos da metade não é uma tarefa fácil. Para além da realização dos ajustes necessários (como suprimir ou condensar tramas e personagens), a opção pela agilidade mostrou-se acertada de um lado - prende o telespectador - mas também, por vezes, comprometeu o entendimento da trama - chegou a confundir o público.

A notícia de que a Globo vai fazer uma nova adaptação de Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado,  em 2012, é a comprovação de que a emissora acertou em sua experiência e pretende levar adiante o horário das 11. O voo de Herculano Quintanilha (ao fim do penúltimo capítulo de O Astro) serve aqui como uma metáfora para as novas investidas da emissora neste formato de novelas, mais curtas, em um horário que permite ousadias e textos mais sofisticados e elaborados. O público aprovou. É realmente para se comemorar. 


7 comentários:

  1. Nilson, muito interessante você ter destacado esse "encaretamento" da TV brasileira. É curioso que determinados temas eram tratados, há algumas décadas, de forma muito mais escancarada que hoje em dia. Nudez, com exceção de alguns mamilos exibidos sutilmente, é quase inconcebível, mesmo na faixa das 23h. "O Astro", inclusive, foi classificada pelo Ministério da Justiça como tendo um conteúdo relacionado a sexo, nudez e violência compatível a de uma novela das 21h. (http://noticias.r7.com/blogs/daniel-castro/2011/09/13/para-ministerio-da-justica-o-astro-e-novela-das-nove-nao-das-onze/). Acho esse encaretamento um verdadeiro entrave na criatividade dos autores de telenovela no Brasil. E, com o crescimento da classe C no Brasil, é possível que esse quadro se torne ainda mais crítico.

    Abraços,
    Conrado Mendes.

    ResponderExcluir
  2. Horário mais que aprovado por mim, por tudo que já disse no texto. A maior liberdade de criação e de ousadia fazem a diferença. E o telespectador mais exigente está carente.

    ResponderExcluir
  3. Adorei tb! Regina Duarte Rocks! Rs...

    ResponderExcluir
  4. Adorei a análise Nilson!
    Adorei a Trama!
    Adorei Regina Duarte e o talentoso elenco!
    A melhor trama de 2011!

    ResponderExcluir
  5. Concordo.O Astro mereceu muitos elogios e realmente a correria exagerada atrapalhou o desenvolvimento da história.A esquizofrenia do Márcio,por exemplo,não foi bem conduzida.Não vimos as reações dos personagens com as mortes de Natal,Jôse e Felipe.Víamos as mortes,mas depois imediatamente cortavam para os enterros.

    Mas no aspecto geral foi um acerto e teve um baita elenco.Marco Ricca e Regina Duarte foram os nomes da novela,seguidos por Humberto Martins e Rosamaria Murtinho.

    ResponderExcluir
  6. O Astro uma novela que marcou no final dos anos 70, mais uma trama bem desenvolvida pela Janete Clair, nessa nova versao os grandes destaques foram Humberto Martins, Daniel Filho, Fernanda Rodrigues, e essa historia de quem matou é uma falta de criatividade profunda, ja virou mania nas novelas do Gilberto Braga por ex.

    ResponderExcluir
  7. Gostei muito do remake, principalmente porque as novelas no ar durante sua exibição eram/são por demais desinteressantes...
    O elenco me agradou muito; a levada kitsh me remeteu de fato a Janete.
    Telenovelas e filmes são definitivamente diferentes. Nos filmes é melhor não mexer; nas novelas, saudosismos à parte, a atualização das tramas só traz benefícios, como é o caso desta.
    Só não gostei da pomba... Tinha isso na versão original?

    ResponderExcluir